domingo, 27 de maio de 2012

Pronome Retrogresso


vossa mercê

vosmicê

você

ocê


c


K.C

domingo, 13 de maio de 2012

Carta Para Augusta Boulevard


Para Augusta, amigos e possíveis identidades. 



“  São Paulo, 13 de maio de 2012.

Oi , é... não sei como começar esta carta. Eu sumo de vez em quando, sem dar muitas explicações, não a vejo mais sempre como antes... você não se  importa muito com isso, mas, nesse domingo, deu vontade de escrever para você.

 


Entenda essas linhas de mais uma filha  comum que sente amor e ódio.  Ódio  por você querer ser alta demais o tempo todo, ter amigas  que ultrapassam a elegância da peruagem,  ter adotado certos filhos playboys idiotas, naquele seu casamento esquisito com Oscar Freire, que  de vez em quando entra em crise,  essa parte dá até para  entendê-lo, pois  médicos também entram em crise. Você não, você vive em crise, de identidade, de mercado, sempre  entre a Heaven e o Inferno...  Tenho ódio pela sua falsidade, afinal você é ou não amiga da Angélica?Você a atura por que é uma de suas vizinhas ricas ou é diplomacia? E daí? Só por que ela também pegou o Tom Zé e ele fez uma música para as duas? ...

 




Não quero atrapalhar seu dia das mães, mas precisava dizer pequenas coisas, que às vezes a Senhora não está a fim de ouvir! Só porque seus filhos a adoram,  lembrando: se gosta de todos eles... quando é que vai dar uma ajeitadinha nas calçadas para os meus irmãos deficientes, hein? Está precisando...

Por outro lado sinto amor. Amor por você ser baixa.  Tenho admiração por esse seu lado baixo,  que às vezes muito me completa   e eu nunca falei isso.   Nunca a agradeci pelas suas acolhidas nas minhas ressacas, nas minhas crises de fins de relacionamentos, das alegrias por aqueles que começaram , sensações ambas que você, de certa forma, acompanhou.
Dos meus aniversários com meus melhores amigos, das discussões de relações com os mesmos, quando precisas, beirando à manhã.  Da sua música nem sempre bem tocada, pela poesia dos seus blues que pairam pelos bares, suas discotecagens, das noites em claro em que me fez companhia na minha boemia, das pizzas que comi sem me importar com meu peso, quem manda você manter aquele cantinho engordativo da pizza?  E do primeiro filme? Do Woody Allen... o primeiro dele a gente nunca esquece. Com você, eu descobri o Engov , na primeira esquina, aquela mesma, onde o Frei encheu a minha Caneca, numa tarde nublada.

Também nunca  me obrigou a  gostar de todos os meus desconhecidos irmãos. Suas tribos de filhos mostram o quanto somos ensimesmados, mas também a sinceridade de que nem todo mundo se atura.


Adotou os poetas que inspiravam livros pela calçada, os artistas, os loucos, os deslocados que o digam. Agregou putas, das frágeis às discriminadas, que necessitavam da sua maternidade. Atura milhares de pileques, chapadices, e melancolias numa noite de sábado. Ser mãe realmente dá trabalho e nem sempre ela precisa ter uma moral. Ser mãe, muitas vezes, é suportar o comentário inevitável da perda de alguns filhos, ainda mais quando várias pessoas sentem...

Sei que daqui alguns anos, vou embora novamente. Volto, depois irei embora para sempre. Terei outros irmãos numa próxima vida que encontrarão uma mãe louca, intensa, um misto de orgulho e preconceito, paixão e caos, energias entrelaçadas. Algumas coisas mudarão, outras são prováveis que não: seu Planeta Terra São Paulo continuará sendo garoa. Os impostos vão subir, as obras públicas vão descer e atrasar, o preço do metrô vai subir, e seus filhos quase sempre ficarão na Consolação.









Eu só espero que o seu dia seja bom, se não for também , “desencana”, não foi isso que a Dona Augusta me ensinou? A vida é essa rua na qual você sobe e desce, é um modo meio caótico-reto de andar que acostumamos , aliás, foi assim que descobri, andando, entre seus sobes e desces, nem sempre sexuais , que esse é um recorrer natural , às vezes estamos subindo, outra hora descendo a avenida,  isto é cíclico. Isto é o seu ciclo e é assim... é assim que a vida se repete.









Rakell. "


K.C

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Esquinas Femininas e Outros Centavos


Algumas pessoas a minha volta viviam me dizendo...
“Não ajude pessoas na rua, você contribui para o tráfico e as drogas.”.
“Não dê dinheiro para os artistas debaixo do MASP.”.
“Não compre poesia desse povo que fica vendendo na Baixa Augusta.".
“... sim, ainda mais nas rodoviárias, cuidado, a de Santo André tem um puteiro perto e é sempre a mais perigosa!”.   “Como se puteiros andreenses definissem caráter e assalto...”- pensava.
Nunca me importei muito para esses tipos de valores que as pessoas nem sabem porque perpetuam, e ao mesmo tempo, sempre tive uma consciência contraditória, de querer tomar cuidado. É estranho. São como certas piadas sem humor do  “Zorra Total”: o bordão mesmo que sem graça pega, algum idiota ri, e várias pessoas começam a espalhar  umas para as outras, automaticamente.



É comum ver pessoas pelas ruas, trens, metrôs, vendendo coisas... ver gente desesperada, contando moedas pra pagar passagem ou pedindo dinheiro.  Tem aquele chato dito “Viu? Eu podia ta roubando to aqui te pedindo...”, com um certo ar de obrigatoriedade... Outras pessoas são bem criativas, inventam histórias de doenças que nem se sabe se existem. Outras procuram dizer suas verdades de maneiras catastróficas, o que é mais válido que dizer sempre as mesmas mentiras.
Um dia , dois travecos me pararam na rua da cidadezinha chata em que eu estudo, São Carlos, final de tarde, e eles foram mais que sinceros...:
- Dá uma ajuda... ? A gente só quer completar uma grana ‘pá toma’ uma cachaça.
- Quanto falta?
- Um e vinte.
- Toma .
- Valeu diva, ah seu vestido azul é um arraso.
- Obrigada... , respondi com meu riso sem graça.

Num outro calar da noite, saindo de um barzinho, uma delas, defendeu a mim e uma amiga.  Uns rapazes, metidos a bad boys, pararam e começaram a gritar na rua, enquanto pedíamos um táxi:  


“ Uh! Federupas... querem uma carona? Umas ‘morena’ dessas lá em casa, hein?” – Óbvio que não, respondi com o peculiar dedo médio. Somente garotas desesperadas teriam a audácia de dar para caras com cantadas tão escrotas.

De repente, ouvimos uma voz grossa, na esquina da rua, gritando:




- Se afasta, vai! Seus  ‘viadinho’, seus ‘filhotinho de pomba gira’!
Catrina, como eu internamente a apelidei, botou eles pra correr.
- Você era a moça...“alôca”!  do money... da bebida, aquele dia, né?
-  Eu sou?
- Ela é? – minha amiga disse, achando que Catrina estava bêbada...
- É sim! Eu lembrei de você! E achava que aqueles bofes iam dar a Elza nas duas. Ah, mas aquele dia...você foi tão glee.
- Dar a Elza...Glee?
- Quê? –minha amiga estava jocosamente alegre...
- Pra mim Elza é um nome e Glee é seriado.
- Não, amapolas, deixa eu traduzir : achava que aqueles caras iam assaltar vocês, e glee, meu bem,  eu quis dizer que você foi  glamorosa, legal, gente fina, entendeu? Ai...esse povo hetero não entende nada, viu...
- É , a gente é meio burro pra entender o dicionário de vocês...mas obrigada pelo glee.





Admirei a Catrina. Sua defesa foi como levar um tapa na cara, sem revide.  É certo que discriminação existe em toda esquina, do lado de cada cidade, mas um travesti não é só um homem que se veste de mulher, é um homem que quer muito ser uma mulher, mesmo que suas tentativas sejam frustradas, e ter esse desejo aturando olhares de pessoas pseudo-cabeças abertas, costumes provincianos, é admirador. Isso sim é ser glee. Ser mulher não é uma coisa fácil.

O táxi chegou ... e no caminho, mesmo sem forças glicêmicas para falar, minha amiga ainda perguntou:
- Que história é essa de  bebida... centavos... glee...? Achei aquela traveca meio maluca...
- Depois, eu conto a história. - E eu nunca mais toquei no assunto...
Catrina talvez não leia, mas agora essa certa amiga já sabe.

K.C

terça-feira, 10 de abril de 2012

7 Letras pra Fazer Uma Noite de Insônia




Talvez, numa noite de insônia, não se deveria:

Comer o resto do jantar

Assistir  filme ultrapassado  no intercine

Rasgar um bilhete, uma fatura, por pura raiva

Andar de um lado para o outro pela casa

Ligar para ex embriagado(a)

Horas passadas no PC jogando paciência

Ouvir Fábio Jr. de Tpm


 Isso pode gerar:




Culotes

Apatia

Ritmias e possíveis estresses

Alma e corpo cansados

Lágrimas desvalorizadas

Hábito tedioso

Ouvidos preocupantes



Anotaram , crianças?


K.C


domingo, 1 de abril de 2012

Asteriscos ou Meras Mentiras?





Um dia , uma garoa,  uma prosa, uma palavra, uma poesia, um amor, um sonho,  uma pessoa, vão embora, sim, não se sabe para onde, sei lá pra quais lembranças, póstumas, vivas na nossa memória...


*
Não adianta se revoltar com a política, a nesfasticidade continuará, só não se sabe se a mesma.
*





Mulher: TPM não é desculpa para tudo. 
Homem: discorde disso, tem mulher que adora.



*
(1923-2012)
Ontem eu encontrei o Millôr Fernandes na rua, e ninguém acreditou, vê se pode? Riram da minha cara, não sei porque, deve ser porque ele virou estrela... 

*


(Millôr F.)

*


Foto: Kelly.C , lendo : "Fabulário Geral do Delírio Cotidiano" - C. Bukowski


 *
Me peguei pensando no meio do asterisco...
Para cada coisa, sempre haverá uma grande mentira. E para cada mentira, um grande espectador.





K.C

sábado, 24 de março de 2012

Quase Dia de Salvação

Oito horas... Tem festa com uns amigos mais tarde, mando mensagem pra eles? Ainda está cedo... O que aconteceu? Pra onde eu fui? Entrei na padaria para comprar um x-burguer. Meus pés amortecem, meus braços formigam. Minha cabeça lateja. Tontura. Desespero. SAMU. Ambulância. Uma amiga chega, de repente, ela me abraça, tenta me salvar do meu desespero. Eu já não sei mais de nada, tampouco penso na dor.

No meu rosto, lágrimas de dor física e ansiedade. Eu odeio hospital, queria logo ir embora dali, fobia? Falava com os olhos. “Calma, esqueceu que eu faço enfermagem, Lu, não vão fazer nada de errado com você lá”, diz a amiga... Tudo tão rápido...cabeça girando...

“Você tem precedentes de doenças psicossomáticas na família?” . “Todos nós somos psicossomáticos”, a médica faz uma cara de interrogação pensando, talvez, se eu me referi a minha família ou a toda maluca população. Alguns dos meus amigos dizem que eu gosto de falar essas frases diretas de efeito, que ficam na cabeça dos outros, às vezes é mesmo sem querer, noutras mesmo com querer, algumas mesmo por prazer... mas naquele momento em nenhum dos mesmos eu era capaz de pensar...

- Nós vamos medir a sua pressão. Tem diabetes? Está Grávida? Ou suspeita de gravidez? Usa entorpecentes? Maconha, cocaína, crack... - quantas perguntas, que mulher louca... não me deu nem fôlego pra respondê-las, respirei e... - Não – respondi à médica , mais agitada que eu.

- Fuma?

- Não.
- Bebe?
- Sim, mas hoje não bebi.
- Vamos medicar você, se estiver melhor, tá liberada...é bom que você faça exames também...
- Ok, obrigada. – Não fui com a cara da médica. Não parecia um humano, era um andróide, nem parecia que estava cuidando de pessoas... ela parecia uma espécie de General dos Médicos do Quartel da Ditadura Militar, fiquei com medo dela, mas me atendeu e educação nunca é demais.
Após os exames, o enfermeiro me olhou com um leve sorriso no rosto, “você não parece ser doente...”-animador ouvir isso... - enquanto preparava a injeção, fiquei mais com medo da cara da médica, que da aplicação.
- Você deve ter tido algum momento de estresse, é muito novinha pra ter coisa séria... vai precisar de um especialista, mas amanhã você vai tá melhor com esse remédio...não vai doer nada.
Por um momento, enquanto tomava a injeção , pensei se todos que trabalhavam naquele hospital eram agitados assim, mas o enfermeiro, ao menos era simpático.
- Ah, importante: não deixa ela dormir sozinha hoje - disse olhando para minha amiga.
- Pode deixar. É melhor você dormir em casa...
Nossas casas não eram longe do hospital e da faculdade, fomos conversando e eu lembrava de pouca coisa, deitei naquela cama enorme... ouvia uns colegas na casa do lado conversando... de repente, no corredor da casa, vozes. Vozes que, mesmo perto, eram muito distantes, “vou fazer um miojo pra você , alguma comida...”, “ela vai apagar, tadinha...” , “ o remédio dá sono, o enfermeiro disse...”. Nessas horas é bom ser salva por pessoas que de alguma forma lhe querem bem...
Amanheci com a luz do sol brigando com a cortina. Ela queria entrar na casa, e a cortina não deixava, era um anticorpo ou um corpo estranho? Deixei um bilhete para a amiga agradecendo o tudo que foi muito, claro, amizade não se agradece, mas não custava dizer poucas palavras pelo acolhimento... eu não quis acordá-la , e também ela ia entender. Eu queria estar em casa. Quando abri o portão, olhei a rua e as pessoas, o dia incerto, me senti rapidamente salva pela luz do dia.
... Acho que vou sumir daqui um tempo pra ficar bem, saudável com o corpo, já que mentalmente, por mais que se tente, é difícil ficar em estado pleno. Quero me cuidar , aproveitar pra fazer outras coisas, antes de ficar estudando, sem estar bem fisicamente, inclusive numa cidade que eu não gosto.
Nua, enrolada na toalha, pego minha taça de vinho e olho para o vestido preto: eu poderia ter morrido com você, não é, baby fúnebre? Talvez, morte não fosse para tanto, digo a ele enquanto dou risada...
Passei por um quase dia de salvação pra sentir o quando saúde não é somente vitalidade, mas o básico, as outras coisas, por mais vitais e belas que sejam, não são tão básicas como estar bem pra poder ouvir o barulho da chuva. Agora, entardece, chove, e sei lá porque senti, eu só sei que senti. Senti que essa chuvinha rasa salvou o meu fim de tarde.


K.C

quinta-feira, 8 de março de 2012

Um Tanto de Sei Lá no Meio da Gangorra




Saber. Saber, saber e saber, onde pessoas banais acreditam que são  tudo  no planeta...este verbo ou virou vergonha ou virou moda.  Vergonha porque, muitas vezes, falar bem e com coerência sobre algumas coisas, formar opiniões sobre assuntos, soa como arrogância, ou parece que se está sozinho, num mundo em que ser ignorante, rir de tudo, estar sempre contente, correndo pelos campos, bebendo Itaipava, e ter aquela horrorosa falsa modéstia pagã de humilde, é ser gentil e legal.

Saber também virou moda; é bonito ver telejornais e parecer antenado com a sociedade, aliás,  saber sempre foi moda, quando o escopo é falar de "experiência de vida". Quem nunca ouviu aquela frase irritante  "Já vi tanta coisa na vida, que qualquer coisa que me contar não me abala , não" , a frase do chatonildo  pseudo-experiente "Minha vida... olha se eu te conto...", a frase do trintão com suas ações afirmativas "Imagina, eu já passei dos 30,  já vi de tudo, espera você chegar nos 30...", "Ah  eu adoro a minha idade, depois dos 30 tudo o que você ver não te impressiona..." - coitado...geralmente, não tenho saco para ouvir as grandiosas experiências de trigésima idade dessa pessoa. 

E claro, a pior frase de todas, sem comentários, a do sabidão metido a sambista "eu já passei por quase tudo nessa vida,  eu sei de muita coisa..." e ainda dos grandes intelectuais, desses que encontramos por ai, no dia a dia, ou no boteco, o tempo todo e que adoram citar Sócrates para dizer o quanto são cultos, na tentativa de abafar o desespero de simplesmente não saber e saem com essa frase bela, de forma pueril , no meio do nada "O que sei é que nada sei ."...



Ouso dizer que tudo isto, é auto-afirmação, besteira, bobagem no asfalto. O saber de qualquer gênero se constrói, se molda, se destrói, renasce, morre, vem à tona, morre novamente. E o que não muda, nesse verbo de mudanças construídas, é o nosso querido "sei lá", meio sui generis demais - olha eu sendo vaidosa, nada mais ridículo que escrever em latim numa crônica -, mas que sugere que se sabe muito, ora se sabe vagamente.

Estou bem sabendo um pouco do que sei no meu mundo jovem e de saber que não sei de tudo, tampouco  quero saber se o que consideram como tudo é o que quero. Eu, até hoje, não sei o que é ser colega de uma pessoa. Ou sou amiga ou não sou, eu não sei o que é ser amiga pela metade. Não sei o que são os números, os mil teoremas, ausência de culpa, de exagero, "ressaquinha", amores tranquilos,  me anular por alguém, e nem o que é amar em duas semanas.

Não sei o que é não ter um mínimo de mimos, e o que é desejar algo ponderadamente. Não sei o que é baixa auto-estima, auto-ajuda,  estar sempre feliz, sempre triste, sorrir com quem eu não gosto... Não sei deixar de ser eu mesma, me aproximar das coisas sem gestos, simples, ruins, belos, variados. Não sei o que é se sentir dona  das palavras, do meu próprio dizer.  Não sei como terminar relacionamentos do mesmo jeito. Não sei escrever traindo meus sentimentos. Não sei o que é gostar não gostando de algo. Ainda não sei totalmente como lidar com nossos espelhos, o que estudo, o que fazer, o amanhã, futuros mesquinhos. No meio de toda essa gangorra, eu só sei da minha dor elegante.





"Um homem com uma dor
É muito mais elegante(...)
                    
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser
A minha última obra..."


Música: "Dor Elegante"- Paulo Leminski e Itamar Assumpção

 
K.C